quinta-feira, 29 de novembro de 2012

“O Fenómeno Cinzento”

“O Fenómeno Cinzento” A autora do fenómeno “As Cinquenta Sombras de Grey” é E.L. James, pseudónimo de Erika Leonard, uma inglesa de 49 anos, mãe de dois adolescentes. Anastasia Steel é uma estudante universitária em vésperas de se licenciar, inocente e virgem, que vai entrevistar um jovem, atraente e obscuro magnata. Daí nasce um fascínio mútuo que vai resultar em escaldantes sessões de sexo sadomasoquista e a descoberta de um passado sombrio. Eis, por alto, o enredo de ‘As 50 Sombras de Grey’, editado em Portugal pela Lua de Papel. A primeira edição, de 15 mil exemplares, esgotou em uma semana e entrou diretamente para o primeiro lugar do top de vendas. Mas... porquê tanto fascínio e falatório com um livro que fala de práticas de bondage, dominação e sadomasoquismo (BDSM)? Numa altura em damos a emancipação feminina como garantida, o que é que ainda leva as mulheres a fantasiarem com um homem dominador que as faça entrar em êxtase? É um jogo de criatividade e imaginação, onde podemos fazer todas as coisas contrárias ao que aceitamos no dia a dia e que a sociedade “reprova”. E quanto mais a fantasia é irreal ou menos aceitável, mais forte é essa experiência de criatividade. O facto da dominação existir na fantasia erótica não significa que, na vida real e fora do espaço de partilha íntima do casal, ela seja sequer minimamente permitida. É uma forma de completar a vida com coisas que, de outra maneira, não permitiríamos e que me parece revestir uma importância extrema se assentarmos em duas premissas: 1º o País atravessa um período de crise extrema, onde as pessoas procuram não viver, mas sobreviver; 2º as práticas de leitura são realidades compartilhadas por poucos em especial se atendermos aos mais jovens e às classes mais baixas. As práticas BDSM não são consideradas desvios sexuais, pelo menos por grande parte da psicologia moderna. “Não existe norma padrão da sexualidade; esta é apenas uma variante. Este tipo de relações tem regras muito específicas e que nada têm a ver com agressões terríveis. Implicam respeito pelo parceiro e poder parar-se a tempo, se for preciso, com uma palavra de segurança. Desde que não prejudique a saúde física e mental de nenhum dos dois adultos...”, defende um psicólogo. Ora, num mundo em que cabe à mulher tomar decisões e ações constantes quanto à família, trabalho ou relacionamento, a fantasia erótica, em que não é só ela que decide, pode fazer todo o sentido e funcionar como escape. A literatura erótica também pode ser um bom aliado para incrementar a nossa sexualidade. Já a série ‘O Sexo e a Cidade’ foi um fenómeno nesse sentido. Tornou as conversas sobre sexualidade entre amigas mais frequentes e até mais ricas, porque havia vocabulário e ideias a trocar, sem que ninguém as criticasse por isso. Mas estarão os portugueses preparados para ler e pensar sobre este fenómeno? Somos muito púdicos! Os portugueses não estão à vontade para falar destes assuntos mas estão muito à vontade para os praticar. Apesar de tudo, está a surgir um grupo de mulheres entre os 35 e os 45 anos com uma atitude diferente relativamente à sua sexualidade, em que verbalizam e partilham as suas fantasias e não se importam muito se as pessoas ficam escandalizadas com isso, embora não o façam para chocar. Hugo Oliveira Vereador da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, Director do Gabinete de Estudos e Edições do Instituto Fontes Pereira de Melo

in Diário de Leiria, 28 de Novembro de 2012

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Perigo das Redes Sociais

Milhões de pessoas no mundo estão ligadas às chamadas redes sociais virtuais (atrevo-me a dizer que largos milhares estão mesmo adidos). Um estudo recente, mostra que nas primeiras horas da manhã existem mais pessoas a utilizarem estes meios para se informarem das actualidades do que a praticar aquele gesto quase mecânico que fomos praticando ao longo das ultimas décadas de ligar a televisão. Sendo um espaço virtual em que - por definição - o contacto físico não existe, e tratando--se de um lugar onde é fácil cada um "inventar" uma personagem ou uma personalidade, todo o cuidado é pouco. E não basta que as pessoas continuem a encarar com boa-fé as tecnologias (que em muito nos facilitam a vida) e a pensar que "do outro lado" encontram alguém sério ou bem-intencionado: se a prevenção não é suficiente - e creio que se começa a perceber que não - então é urgente que se regule a sua utilização. Por exemplo, ainda recentemente a Legal & General, uma empresa seguradora, alertava os seus clientes, a partir dos dados de um estudo, para um novo método de actuação de assaltantes: percebendo que basta adicionar as pessoas no Twitter ou no Facebook como "amigos", e sendo estes pedidos muitas vezes aceites, os assaltantes descobriram que os utilizadores acabaram depois por contar o que vão fazer no feriado ou nas férias ou o que compraram de novo. O mesmo estudo concluiu que 38% das pessoas que usam redes sociais publicam informações detalhadas sobre os planos para o feriado e 33% dão informações acerca dos seus hábitos de fim-de-semana, designadamente se vão passá-lo fora de casa. Um outro dado - recente mas também alarmante - vem de um estudo da Opinion Matters: tendo enviado cem convites a estranhos seleccionados ao acaso, concluiu-se que 92% das pessoas aceitaram os convites no Twitter, sem qualquer verificação. Além disso, 13% dos homens facultaram o seu número pessoal de telemóvel, contra apenas 7% das mulheres. Ainda no plano desta "nova criminalidade virtual" importa recordar que a Polícia Judiciária (PJ) considera preocupantes os sequestros com abusos sexuais, ligados à Internet, que atingem sobretudo as raparigas entre os 12 e os 15 anos, os alvos preferenciais destes predadores que muitas vezes são cadastrados. Em Portugal e também segundo os dados da PJ, o número de situações de abuso potenciadas pelas redes virtuais tem continuado a aumentar. Realidades recentes como o Cyberbullying (divulgação de informações embaraçosas e hostis sobre outros.); assédio on-line (inclui uma ampla gama de ações, incluindo ameaças.); sexting (envio e recebimento de mensagens sexualmente explícitas, incluindo fotografias e vídeos.); depressão facebook (há relatos de que “posts” de amigos muito populares e felizes podem fazer com que alguns adolescentes se sintam deprimidos por se julgarem inferiores.) são alarmantes e espelham bem os riscos do uso indevido das redes sociais. Contudo, não esqueçamos daqueles riscos tão elementares - que muito foram debatidos- como os prejuízos no rendimento escolar e diminuição dos períodos de sono dos jovens (e não só;); prejuízos à reputação pessoal e violação da privacidade- passando por elaboração de simples emails anónimos ou criação de contas de facebook realmente virtuais; exposição a conteúdos impróprios, a dados pessoais e familiares que causem riscos à segurança, como sobre o dever dos pais de acompanharem a utilização da internet pelos menores. Por tudo isto, parece-me ser do relevante interesse de todos que se exija uma maior regulação e um enquadramento legal na utilização da Internet e das redes sociais. Tratando-se de um espaço onde se reproduzem - em espelho - os mesmos mecanismos de desvio às normas e os mesmos comportamentos que, noutro local, são considerados como fora da lei, é no mínimo espantoso que este continue a ser um espaço sem lei. Advogo uma maior atenção para esta matéria porque estou bem ciente das vantagens para todos, mas sobretudo para os utilizadores mais frágeis e propensos a situações de abuso. É que facilitar e contemporizar com as utilização das redes virtuais equivale a dar um automóvel ligeiro a um condutor menor e não encartado: este até poderá conduzir uns quilómetros sem incidentes, mas quando estiver numa situação mais perigosa a probabilidade de ser envolvido numa situação de acidente aumentará exponencialmente. Como se percebe, também nesta matéria da utilização livre das redes sociais todo o cuidado é pouco e - infelizmente - até agora parece que não tem sido nenhum… Hugo Oliveira Vereador da Camara Municipal das Caldas da Rainha Director do Gabinete de Estudos e Edições do Instituto Fontes Pereira de Melo

in Diário de Leiria, 7 de Novembro de 2012